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HCM: Uma referência no alívio da dor



Sentia muita dor que não me permitia dormir. A minha coluna estava mal e passava a maior parte do tempo deitada (…)” – disse Fulgência Simão que há anos luta contra dores crónicas na coluna.


Encontrámos esta cidadã de 62 anos de idade na Unidade da Dor do Hospital Central de Maputo. É aqui onde encontra o suporte para aliviar tais dores, através de várias terapias. Participa também das sessões de psicologia com outros pacientes com problemas similares.


A dor paralisa a vida de Fulgência Simão. Por exemplo, parou de trabalhar e de executar outras actividades rentáveis. Está dependente da ajuda do parceiro inclusivamente para se locomover e até para a satisfação das necessidades biológicas e outras.


Com os fármacos, as terapias e a ajuda incondicional do cônjuge, está a superar, embora de forma paulatina, o problema que a apoquenta. Hoje em dia, tenta caminhar sem precisar de algo para se apoiar. E está animada por isso. É, para esta cidadã, uma luz no fundo do túnel.


“Sei que o meu problema não vai passar de um dia para o outro. Mas confesso que me sinto um pouco melhor. Devo continuar a medicar, seguindo a recomendação dos médicos, para que um dia eu recupere a minha saúde”, encorajou-se. 


A directora desta unidade hospitalar, Emília Miquidade, contactada a propósito, disse-nos que anualmente são assistidas cerca de duas mil pessoas nestes serviços. O número está a aumentar, sobretudo de pacientes oncológicos, 90 por cento dos quais chegam com dor intensa.


“Nós atendemos doentes crónicos com dores de entre três e seis meses de evolução. Eles são referenciados das especialidades que podem ser cirurgia, ortopedia, ginecologia, maxilo-facial, onde a abordagem cirúrgica pouco iria beneficiar, por isso opta-se mais por um tratamento conservador”, explicou Emília Miquidade.


Até aqui não se conhece ao certo quantas pessoas sofrem deste problema em Moçambique, estando a decorrer uma investigação para o apuramento de tais dados.


Contudo, um estudo feito no HCM, em 2016, sobre a dor neuropática, aponta que as pessoas do sexo feminino são as mais propensas à contracção da doença.


São várias as razões que levam as pessoas a desenvolver uma dor crónica. Emília Miquidade aponta as lombalgias, cancro, dor neuropática e HIV associado ao cancro como sendo as principais patologias na Unidade da Dor do HCM.


Técnicas que atenuam  


A Unidade da Dor do HCM é de referência nacional e uma das melhores em termos de infra-estruturas, equipamento e profissionais especializados na abordagem da dor entre os países africanos de expressão portuguesa.


Neste local não se cura a doença como tal, mas procura-se através de várias terapias, massagens e medicamentos aliviar a dor. Dependendo da evolução do doente as sessões de tratamento podem ser semanais, quinzenais ou mesmo semestrais. 


De entre as várias técnicas realizadas para o controlo da dor aguda e crónica consta a infiltração, pontos gatilho, infiltração epidural, PCA (analgesia controlada pelo doente), bloqueios eco-guiados e acupuntura. Actualmente, foi introduzida a ozonoterapia.


“Nós fazemos infiltrações epidurais para os pacientes que têm hérnias onde o cirurgião já não vai poder operar, pacientes que têm dores na coluna com radioterapia ou que a dor se prolonga para a perna e que têm muita limitação para poder andar. Também fazemos infiltrações ponto-gatilho para os pacientes que têm uma dor muscular localizada (dor miofascial). Naquele ponto específico fazemos uma infiltração colocando o medicamento directamente e também temos as consultas normais onde passamos a medicação oral”, anotou Emília Miquidade realçando que a abordagem da dor é multidisciplinar e multimodal, por isso, recorre-se a diferentes meios e técnicas para poder aliviar o sofrimento. 


As vantagens da ozonoterapia


A ozonoterapia é a técnica mais recente introduzida na Unidade da Dor do Hospital Central de Maputo. É um procedimento médico que usa mistura de ozono médico (cinco por cento de ozono + 95 por cento de oxigénio) como agente terapêutico em diferentes patologias.


A sua prática é recomendada exclusivamente por profissionais devidamente capacitados. Já é feita em vários países. No HCM, foi introduzida em Dezembro de 2017 e é realizada por quatro médicos capacitados na matéria, sendo dois em Portugal e os outros na maior unidade sanitária do país.   


É uma terapia totalmente “natural” com poucas contra-indicações e efeitos secundários mínimos desde que se realize correctamente, segundo garantiu a directora da Unidade da Dor do HCM.


“É mais barata em termos de custos. Nós precisamos apenas de ter a máquina e estarmos conectados a uma fonte de oxigénio”, refere a fonte.


O tratamento varia de acordo com o estado clínico do paciente, natureza e gravidade da doença. Algumas pessoas sentem alívio logo após os primeiros dias de tratamento e outras só depois de várias sessões.


Três semanas depois da introdução do procedimento já estavam em tratamento pelo menos 15 pacientes. Ricardo Manuel Bule, 50 anos, é um dos primeiros beneficiários.


“Já durmo tranquilo, o que era impossível. Perdi a conta das noites que passei em branco por causa da dor forte que sentia… Posso até dizer que já estou bem”, brincou, recordando que o tratamento da dor pode ser por toda a vida.


Grupo de apoio psicológico


Quando se está com dor ou a passar por alguma dificuldade vários são os pensamentos que fluem na mente de cada um. Alguns são optimistas e encaram a situação de forma positiva. Outros, porém, caem na depressão, perdem a esperança e a auto-estima, segundo refere a psicóloga clínica Maria Jesuíta. 


Para ajudar os pacientes a ultrapassar pensamentos negativos e a saber conviver com a dor, os doentes são aconselhados a participar em grupos de apoio psicológico onde se partilham experiências e ideias de cada um sem discriminação.


“Este grupo ajuda as pessoas a encarar a dor de forma diferente. Tem a componente de troca de experiências nas quais as pessoas relatam sobre as suas histórias de superação, como conseguem lidar e levar uma vida saudável convivendo com a dor. A pessoa age de uma maneira diferente; há quem não consegue sequer trabalhar, outros contam que conseguem ir ao trabalho mesmo tendo a dor, sendo que para tal recorrem à igreja e a outras práticas. E por isso cantam, brincam escutam música”, explica a psicóloga.


A troca de experiências é vivida num ambiente em que não há quem saiba mais que o outro ou seja mais esperto. Nos encontros que, normalmente, acontecem em cada última quinta-feira do mês, os psicólogos orientam a conversa e incentivam os participantes a fazerem visitas domiciliárias àqueles que não se sentem bem em sair de casa.


“Então, as pessoas acabam percebendo que podem melhorar sem precisar de ficar reféns da dor dentro de casa. No grupo não colocamos em causa a crença de cada um. Pelo contrário, ajudamos a respeitar as recomendações dadas pelos médicos”, observou Maria Jesuíta.


Problema de infância que se reflecte na fase adulta


Manuel Chicane, 51 anos, faz consultas na Unidade da Dor do Hospital Central de Maputo. O seu problema iniciou enquanto criança, numa injecção que invadiu a veia levando à atrofia de um dos seus membros inferiores. Durante anos viveu com este problema e quase nada sentia.


Aos 40 anos e com o aumento do peso começou a ter dores na coluna.


“Um dia agachei-me e tive uma complicação na coluna, o que me levou a procurar ajuda médica. Passei da ortopedia onde fiz algum tratamento, depois fui à fisioterapia mas a dor continuava, o que me levou a fazer consulta na unidade da dor. Aqui fiz a infiltração lombar e passei a ter um controlo sistemático”, disse.


Com este tratamento, a dor de Manuel Chicane acalmou por oito anos. Contudo, há dois anos, teve de voltar a ser submetido a um outro tipo de tratamento para atenuá-la ainda mais, pois a tendência era uma nova evolução e explica porquê: “A dor intensificava porque o pé atrofiado encolheu um bocadinho, o que provocava um desequilíbrio na coluna, razão pela qual tive de calçar um sapato compensador para equilibrar a coluna”.


Manuel Chicane é um dos pacientes que está a fazer a ozonoterapia. Teve de aprender a viver com este problema, levando uma vida condicionada mas saudável e aconselha: “a ozonoterapia proporciona alguns bloqueios na dor. A questão é um indivíduo ter de viver de forma saudável. Para isso é obrigado, todo o momento, a usar sapato compensado para poder equilibrar a coluna. Assim alivia as dores. É verdade também que quando estamos em casa começamos a pôr chinelos, mas não é aconselhável. Temos de ter um em mente que, mesmo em casa, a gente deve usar aquilo que os médicos recomendam para ter uma vida confortável e saudável”.



Jornal Notícias

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